quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Beija-flor

 

Quantos anos você tinha quando descobriu que o “para sempre” é sobre memorias e não sobre pessoas? Quando o seu coração foi partido pela última vez? E ao envelhecer, você conseguiu calejar?

CARTA ABERTA AO MEU BEIJA-FLOR

Eu me lembro de não te amar, parece que foi ontem e em um piscar de olhos você tomou conta de tudo. Meu coração foi quebrado em partículas, meus olhos não param de regar a sua ausência.

Sabe, quando você me deixou doeu, ainda doí, cada dia que passa a dor só aumenta. Mas pensei “o universo está se alinhando novamente”. É claro que essa realização não poderia me pertencer.

Quando aconteceu de você ir, você já era a minha alma. Eu rezei, rezei de verdade pedindo para que me devolvessem para você. Eu te pertenço tanto. Eu quis muito te pedir para ficar, mas não me senti no direito. Chorei, chorei até que dormir e no outro dia chorei porque não se tratava de um pesadelo, você havia partido de verdade. O mês se arrastou e enquanto os dias me atropelavam eu repetia para mim que você iria voltar. “Respeite o tempo e o espaço dela, Ray”.

Eu peço ajuda de qualquer um. Com a propriedade de quem saiu do céu e foi até o inferno com um simples “adeus”, aceito ajuda de Deus, aceito ajuda do diabo, eu pedi ajuda até de você.

Eu ofereço a minha servidão e lealdade para aquele que me fizer aceitar no coração que não se trata de tempo ou espaço, que foi um adeus e os adeuses não voltam nem para serem vistos pela última vez com olhos de amor.

Entre uma crise de abstinência e meus pedidos de socorro, nas primeiras noites eu te abracei em três adormecer. Eu não sei se foi delírio ou se foi ajuda, mas eu acordei na madrugada e você estava aqui, deitada nos meus braços. Pode ter sido tortura também, já que é exatamente isso que se vive no inferno. Tivemos outro momento, o dia que eu te acordei. Já era de manhã quando eu entrei no seu quarto, te dei um beijo e sai. Vou seguir dizendo que foram encontros de almas pois elas não aceitam, tão cedo, a nossa despedida.

Eu tenho tantas perguntas não formuladas, todas guardadas no meu estomago em formato de nó.

Estou tentando me convencer de que essa vida é pequena se comparada a imensidão da eternidade, isso não me consola, mas eu desejo que dê certo para próxima vida.

Essa sou eu tentando te dizer: adeus, então.

Eu sempre vou te pertencer, beija-flor.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

A verdade por trás dos meus olhos

 

Entre um rivotril e outro, algum despertar na madrugada. O Alivio é imediatamente interrompido ao perceber que estou na vida real e não em um terrível pesadelo.

Eu não sei o que fazer, não sei para onde ir e nem como encarar a realidade de que você é mais feliz sem mim. De óculos escuros eu vou para o trabalho alegando que a enxaqueca vai me matar. Enquanto sua falta me rasga lentamente, atrás dos meus olhos estão todas as lagrimas que eu gostaria de chorar no nosso casamento. Mas essas carregam dor.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Castanho Claro Verde Mel

Seres humanos. De todos os erros do mundo eu errei você.
O desprezo sai natural, ignorar é tão simples quanto respirar. Me lembro bem de quando eu ainda era uma menina que sentava e observava as pessoas, nunca consegui compreende-las e desde cedo aceitei que o erro era meu. Todos se amam, se odeiam e sobrevivem. No fim das contas eu descobri que todos sobrevivem.
Meninas são ingênuas. Mesmo sabendo do perigo eu quis amar o ser humano, essa coisa me parecia tão inocente, sabia abraçar, beijar e falar.  Então eu o amei, o recebi em minha casa, acolhi em meus braços e entreguei-lhe o meu coração, feito algo bem treinado eu atendia pelo nome de “amor”. Essa praga sabe falar, quem ensinou aquela praga a falar? O meu erro foi ouvir. As palavras que iludem são doces, eu fui abraçada e sem perceber o meu coração já batia em outro corpo. Eu tentei, por Deus, eu tentei mantê-lo vivo mas aquela humana fez questão de atrapalhar.
Eu já morri uma vez, não tenho sangue e se tivesse seria frio, não tenho coração, mas se tivesse não bateria e assim mantive-me intacta e inabalável por muitos anos. Ninguém poderia me tocar, nada poderia me ferir e com o passar do tempo eu me tornei mais forte, mais indestrutível. Humanos... Fui me tornando superior a eles, até as minhas conversas foram selecionadas, meu precioso tempo deu de ser contabilizado.
Nostalgia. Me lembro de quando cresci e fui conhecer mais pessoas, eu era tão jovem e linda, sorria para os humanos, me descabelava no vento, bebia uma cerveja atoa, ficava bêbada e feliz brincando, fumava um cigarro e me acabava na noite só para lembrar da ressaca que sempre foi minha. Eu sinto falta dos humanos que conheci nessa época, havia algo neles que me tornava vulnerável ao amor.
Hoje eu sou velha e louca. Humanos, malditos humanos me fizeram assim. Eu gosto de ser exatamente como sou. Abençoados sejam vocês. Converse comigo se desejar, mas, por favor, não me toque. É mais fácil me desligar assim, não me infectar assim.
Eu era jovem e linda quando te conheci, eu já estava velha e louca quando você reapareceu. O que você fez comigo? Eu bebi todo o álcool do mundo e me lembro de chorar enquanto você dirigia. Eu chorei!!!!! A última vez que chorei eu pensei que meu cachorro fosse morrer. Eu chorando por uma humana outra vez? Isso me assustou então eu chorei mais ainda. Coisas como eu sou precisam de controle, eu tenho controle, eu sou uma coisa.
Lagrimas escorreram em meu rosto.
Eu me machuquei e inexplicavelmente sangrou, então percebi que o meu sangue estava correndo quente na veia, meu coração parecia pulsar e em vez de ignorar eu parecia respirar. Como isso é possível se eu já morri?
Ela veio tão bruta e sorridente que eu não sabia se eu poderia olhar, mas também não soube para onde correr. Ela tem a mão pesada, sorriso manso de lábios macios e língua afiada de presas grandes e veneno frouxo feito cobra cascavel. Foi o seu veneno que me trouxe de volta a vida?
Eu te amo só porque te odeio e não a desprezo. Eu luto contra isso, eu preciso continuar morrendo. Você me enche o saco, eu pago de clichê e responsável, a que estuda e trabalha e você passa o dia na merda da cachaça. E quando eu gostava disso? Isso me parecia ser vida. Odeio isso não ser vida, odeio não te controlar e não acreditar em nenhuma das palavras que me sussurra claramente “eu estou mentindo”. Você é humana, talvez por isso minta tão bem. Fico imaginado: se tivéssemos dado certo ainda quando eu era jovem e linda, a três / quatro anos atrás, será que nos daríamos bem? Você se parece tanto com quem eu era. Eu evolui. Os defeitos que te aponto são os mesmos que pesam em minhas costas, em meu passado e deixam o meu futuro corcundo. Penso que as coisas são como devem ser, a três anos atrás você teria me matado também. Eu precisava morrer. Eu preciso me livra de você, não sei se quero e nem como faço, mas eu preciso.

Querida humana, a culpa é de seus olhos castanho claro verde mel, olhos de cobra venenosa. Querida, você é uma humana. O que sou eu?

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Molhe-me com teus lábios


Quando soube, mal pude acreditar. Ao te ver naquele estado, minha amada, fiquei estarrecida. Como foi possível? Você ainda tinha forças, nem que fosse para me fazer sofrer. Segurou a minha mão e com este gesto eu vi em seus olhos chorosos o quanto nunca se arrependeu de me matar. Apesar de tantas mortes crônicas já existentes em minha alma emotiva, apesar do meu coração fraco, você sempre tão racional, agora iria sem mim e não era por mim. Em seus olhos haviam lagrimas e eu ainda não era o motivo. Sentei-me em uma cadeira de metal, sem espumas naquele cantinho frio para te observar – ainda posso sentir a dormência em minhas nádegas-. Eu que sempre te amei tanto, precisei vigiar-te até a morte vir e te levar para casa, te colocar na mesma cama que ela dorme e fazer de você a amante mais bela que a desgraçada já beijou. 
Eu vi seus olhos fechando lentamente. 4 meses de agonia. Eu poderia te perdoar, se prometesse me dar teu coração. O que são algumas traições, humilhações e desrespeito? Nada teria sido em vão se tivesse me dado o maldito que hoje quase não bate em seu peito.
Eu não sai dali nem para tragar a porcaria do meu cigarro, nem para contemplar a minha infelicidade na sorte. A refeição daquele hospital provocava nos músculos de minha boca leves contrações que poderiam até serem comparados com um sorrisos. Aquela comida era fria, ruim e sem tempero assim como as comidas que você me dava na madrugada quando eu já não passava de seu terceiro ou quarto aperitivo.  Sua mente, seu cérebro tão racional já não pensava mais e eu ainda a segurava naquele lugar tão movimentado durante à noite (e não era pelas putas que você tanto amava degustar) em prantos, lagrimas e desespero pedia-lhe que ficasse mais um pouco. Por favor, fique mais alguns dias! Sua veia que nunca parecia correr sangue, você nunca me pareceu humana, seu coração que nunca batia por ninguém e nem por si. Porque tanta frieza? Agora uma máquina controla seus batimentos. Que merda. Maldita morte cerebral. E essa porcaria de coração que nunca me pertenceu. Você já estava com a hora marcada. Ao meio dia de terça-feira ele voltaria a não bater.
Eu não tinha mais unhas, meus dedos já estavam sangrando e você, maldita, iria embora.
Eu precisava reagir, amor, para o nosso bem. Eu não poderia viver sem seu coração. Naquele hospital filho de uma puta trabalhava um médico conhecido.  Vivíamos nos pegando aos corredores da faculdade. Era quente. Ele me comeu uma vez na sala vazia do segundo andar, atrás do ginásio, no banheiro masculino do bloco k, no feminino de algum boteco sujo... Em nome dos velhos tempos ele me ajudou. Medico filho da mãe.

Seu coração de horas contadas estava predestinado a ser MEU, amor. Precisei gastar algum dinheiro, fazer alguns exames, alterar alguns prontuários, calar a boca de quem não devia falar. Foi questão de poucas horas.
Me recordo que eu tinha medo, mas eu não te poderia deixar ir. Seu coração sempre foi valioso pra mim. Por sorte havia compatibilidade sanguínea e não somente astral. Nós éramos compatíveis, amor. Antes de deitar-me ao seu lado, dei-lhe um beijo na boca e até parecia ter me correspondido. Deitei-me e segurei a sua mão (que já nem me sentia mais). Meus olhos se fecharam. Sem o seu coração eu não poderia viver, amor. Quando acordei encontrei-me com uma cicatriz enorme no peito. Minhas próteses de silicone já não importavam mais. Você que estava morta, seu coração agora bate em mim. Levei algum tempo para me recuperar. O importante é que agora seu coração é meu. Apesar do risco que tivemos de correr, SEU CORAÇÃO É MEU. Você prometeu entrega-lo a mim na hora certa e nós cumprimos sua promessa. Eu que sempre odiei dançar, me matriculei com o seu professor que agora me come todos os dias depois da aula, faço academia, trepo com o seu personal e pintei meu cabelo de preto (tinha razão: o cabeleireiro é gay). Tudo que você mais gostava, amor, eu faço por você. Parei de fumar para que não se incomodasse, para que o nosso coração continuasse batendo por mais tempo. 
O curioso é a forma inédita que aprendi a amar. Eu amo não amando. Eu degusto. Tenho vários aperitivos que são para mim o que eu era para você. Hoje todas as suas prostitutas dormem em minha cama, gozam em minha boca, outrora em meu lençol. Queimam-me com os seus cigarros. Me embriago com a sua tequila, provo de seu vinho tinto e termino vomitando sua cerveja. O mundo é diferente agora. Entrei na sua vida, vivo e desprezo seus amores. A frieza sai de mim como se fossemos uma só, é algo natural. O desafeto se confunde com o excesso de prazer. Agora eu sei, era do seu jeito que você me amava. 
Diferente de você, amor, toda noite  eu rezo. Rezo implorando para Deus, pedindo que um de meus desprezos me ame da forma que era minha natureza de amar você.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Eu nunca soube o motivo de tantas brigas. A culpa sempre foi minha, eu sei!
parecíamos nos gostar, mas nunca soubemos nos suporta. E  em cada adeus a certeza de que voltaríamos. Não sei porque me ama tanto. Poderia jogar suas coisas fora e acabar com as minhas desculpas de te ver. Melhor não! Você nunca me aqueceu no frio, mas seu carinho me faz bem. Sua presença ausente me mantem. A gente vai, depois a gente ver. Você é meu sono profundo, meu grito sufocado de um pesadelo que não consigo acordar.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Minha Cura

Minha doença, sinto você cada vez mais distante de mim. E eu que pensei que nunca mais iria me curar desse seu sorriso bobo de dentes bonitos, cabelos loiros que brilham feito o sol no raiar do dia, desse seu toque gostoso que hoje mau me lembro qual.
O meu remédio em nosso tempo.
Minha cura veio com olhar bêbado de frente aos meus olhos sóbrios e boca enfumaçada. Veio de cabelos longos e pretos, vestida como quem não me esperava e cantando feito quem me encontrava. Sorriso aberto de menina mimada que me beijava me consumindo como mulher, nós nos fizemos mulher.
A minha cura veio como um replay do meu adeus de uma vida insana, incontentável. Bebia como se me bebesse e bebia-me de fato enquanto eu me embriagava nos seus olhos que eu não sabia ler ao olhar.
Que remédio raro, que cura difícil.
Ela começou a sentir ciúmes, dizia que eu só a procurava para provocar, disse que já não me queria mais já que a ela eu não podia ser só dela. Se minha cura soubesse o quanto eu a esperei, o quanto a espero, o quanto somos uma da outra.
  Meu corpo voltou a ficar tremulo, meu sangue a esfriar, minha razão ficou bêbada, ao meu passado eu quis voltar, os meus pulmões já estão negros como antes.
Foi ai que comecei a busca desesperada de um genérico para sua formula. Saía pelas ruas na esperança de te encontra. Adquiri ingredientes de uma receita perfeita de você.
Peguei de alguma moça seus cabelos, de uma menina dengosa a sua boca, de um rapaz atrevido o seu sorriso, de uma criança o seu comportamento, de uma amiga o seu carinho, de uma prostituta seu desejo e da minha mente o seu perfume.
Meu quarto já estava cheio de pedaços, foi quando comecei a montar toda aquela tralha de você. Foi por um segundo, eu notei que ainda me faltava a sua voz, sua insubstituível voz.
Corri (quase sem forças) até o bar e te gravei cantando. Na minha corrida contra o tempo, enfim, eu consegui: na pose de falsos pedaços, te criei submissa a mim.
Não durou uma semana até que eu me cansasse desse teatro. Completamente bêbada e coberta de ira, eu te destruí. Desfiz-me de toda aquela sujeira e pedaços, lavei minha alma com lagrimas e matei a minha sede com outra saliva.
Tudo que me resta de você é sua voz cantando para mim quando eu bem entender e o seu cheiro que não sai do meu pensamento.

Preciso de um antídoto para sarar a doença que me causou à minha cura.

Breve e Boemia

Tudo aconteceu no tempo em que o coração sentia-se cheio do vazio de amor.
Ela apareceu com pele morena e boca de menina dengosa. O desejo já era antigo. Ela chegou sorrindo e eu fiquei só rindo. Procurava detalhes de sua insegurança e forçava a sua instabilidade para que talvez viesse a minha inspiração. Meio que quase sem querer ela se deitou em minha cama e de forma que eu não esperava ate falamos de amor, amores antigos (talvez nem tão antigo assim). E com aquele coração recíproco no desamor e sozinho no desapego ela me fez (na pratica) o amor.
E eu: uma mulher, senti-me adolescente. Foi como se os anos nunca houvessem se passado. Comecei a ter ciúmes até das cervejas que ela se punha e dispunha a beber.
E aquele halito embriagado, soprado entre palavras bêbadas me fazia relembrar em flash tudo que poderia se passar na minha mente sóbria, porém, insana.

Eu parecia estar gostando, e entre nós tudo que me aparecia como ponto final eu me via (entre nó) transformando em vírgulas. E quantas vírgulas foram eu nem sei. Mais do que ensaios de despedias, nós tivemos despedias dramáticas. Amor, foi por uma semana e meia que a sua boemia fez-me sentir incomodada. A verdade é que talvez em outra vírgula, entre um nó e outro eu seja a sua desculpa camuflada em motivo para tanta embriagues.