quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Molhe-me com teus lábios


Quando soube, mal pude acreditar. Ao te ver naquele estado, minha amada, fiquei estarrecida. Como foi possível? Você ainda tinha forças, nem que fosse para me fazer sofrer. Segurou a minha mão e com este gesto eu vi em seus olhos chorosos o quanto nunca se arrependeu de me matar. Apesar de tantas mortes crônicas já existentes em minha alma emotiva, apesar do meu coração fraco, você sempre tão racional, agora iria sem mim e não era por mim. Em seus olhos haviam lagrimas e eu ainda não era o motivo. Sentei-me em uma cadeira de metal, sem espumas naquele cantinho frio para te observar – ainda posso sentir a dormência em minhas nádegas-. Eu que sempre te amei tanto, precisei vigiar-te até a morte vir e te levar para casa, te colocar na mesma cama que ela dorme e fazer de você a amante mais bela que a desgraçada já beijou. 
Eu vi seus olhos fechando lentamente. 4 meses de agonia. Eu poderia te perdoar, se prometesse me dar teu coração. O que são algumas traições, humilhações e desrespeito? Nada teria sido em vão se tivesse me dado o maldito que hoje quase não bate em seu peito.
Eu não sai dali nem para tragar a porcaria do meu cigarro, nem para contemplar a minha infelicidade na sorte. A refeição daquele hospital provocava nos músculos de minha boca leves contrações que poderiam até serem comparados com um sorrisos. Aquela comida era fria, ruim e sem tempero assim como as comidas que você me dava na madrugada quando eu já não passava de seu terceiro ou quarto aperitivo.  Sua mente, seu cérebro tão racional já não pensava mais e eu ainda a segurava naquele lugar tão movimentado durante à noite (e não era pelas putas que você tanto amava degustar) em prantos, lagrimas e desespero pedia-lhe que ficasse mais um pouco. Por favor, fique mais alguns dias! Sua veia que nunca parecia correr sangue, você nunca me pareceu humana, seu coração que nunca batia por ninguém e nem por si. Porque tanta frieza? Agora uma máquina controla seus batimentos. Que merda. Maldita morte cerebral. E essa porcaria de coração que nunca me pertenceu. Você já estava com a hora marcada. Ao meio dia de terça-feira ele voltaria a não bater.
Eu não tinha mais unhas, meus dedos já estavam sangrando e você, maldita, iria embora.
Eu precisava reagir, amor, para o nosso bem. Eu não poderia viver sem seu coração. Naquele hospital filho de uma puta trabalhava um médico conhecido.  Vivíamos nos pegando aos corredores da faculdade. Era quente. Ele me comeu uma vez na sala vazia do segundo andar, atrás do ginásio, no banheiro masculino do bloco k, no feminino de algum boteco sujo... Em nome dos velhos tempos ele me ajudou. Medico filho da mãe.

Seu coração de horas contadas estava predestinado a ser MEU, amor. Precisei gastar algum dinheiro, fazer alguns exames, alterar alguns prontuários, calar a boca de quem não devia falar. Foi questão de poucas horas.
Me recordo que eu tinha medo, mas eu não te poderia deixar ir. Seu coração sempre foi valioso pra mim. Por sorte havia compatibilidade sanguínea e não somente astral. Nós éramos compatíveis, amor. Antes de deitar-me ao seu lado, dei-lhe um beijo na boca e até parecia ter me correspondido. Deitei-me e segurei a sua mão (que já nem me sentia mais). Meus olhos se fecharam. Sem o seu coração eu não poderia viver, amor. Quando acordei encontrei-me com uma cicatriz enorme no peito. Minhas próteses de silicone já não importavam mais. Você que estava morta, seu coração agora bate em mim. Levei algum tempo para me recuperar. O importante é que agora seu coração é meu. Apesar do risco que tivemos de correr, SEU CORAÇÃO É MEU. Você prometeu entrega-lo a mim na hora certa e nós cumprimos sua promessa. Eu que sempre odiei dançar, me matriculei com o seu professor que agora me come todos os dias depois da aula, faço academia, trepo com o seu personal e pintei meu cabelo de preto (tinha razão: o cabeleireiro é gay). Tudo que você mais gostava, amor, eu faço por você. Parei de fumar para que não se incomodasse, para que o nosso coração continuasse batendo por mais tempo. 
O curioso é a forma inédita que aprendi a amar. Eu amo não amando. Eu degusto. Tenho vários aperitivos que são para mim o que eu era para você. Hoje todas as suas prostitutas dormem em minha cama, gozam em minha boca, outrora em meu lençol. Queimam-me com os seus cigarros. Me embriago com a sua tequila, provo de seu vinho tinto e termino vomitando sua cerveja. O mundo é diferente agora. Entrei na sua vida, vivo e desprezo seus amores. A frieza sai de mim como se fossemos uma só, é algo natural. O desafeto se confunde com o excesso de prazer. Agora eu sei, era do seu jeito que você me amava. 
Diferente de você, amor, toda noite  eu rezo. Rezo implorando para Deus, pedindo que um de meus desprezos me ame da forma que era minha natureza de amar você.

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