Minha doença, sinto você cada vez
mais distante de mim. E eu que pensei que nunca mais iria me curar desse seu
sorriso bobo de dentes bonitos, cabelos loiros que brilham feito o sol no raiar
do dia, desse seu toque gostoso que hoje mau me lembro qual.
O meu remédio em nosso tempo.
Minha cura veio com olhar bêbado
de frente aos meus olhos sóbrios e boca enfumaçada. Veio de cabelos longos e
pretos, vestida como quem não me esperava e cantando feito quem me encontrava. Sorriso
aberto de menina mimada que me beijava me consumindo como mulher, nós nos
fizemos mulher.
A minha cura veio como um replay
do meu adeus de uma vida insana, incontentável. Bebia como se me bebesse e
bebia-me de fato enquanto eu me embriagava nos seus olhos que eu não sabia ler
ao olhar.
Que remédio raro, que cura
difícil.
Ela começou a sentir ciúmes,
dizia que eu só a procurava para provocar, disse que já não me queria mais já
que a ela eu não podia ser só dela. Se minha cura soubesse o quanto eu a
esperei, o quanto a espero, o quanto somos uma da outra.
Meu corpo voltou a ficar tremulo, meu sangue a esfriar, minha razão
ficou bêbada, ao meu passado eu quis voltar, os meus pulmões já estão negros
como antes.
Foi ai que comecei a busca
desesperada de um genérico para sua formula. Saía pelas ruas na esperança de te
encontra. Adquiri ingredientes de uma receita perfeita de você.
Peguei de alguma moça seus
cabelos, de uma menina dengosa a sua boca, de um rapaz atrevido o seu sorriso,
de uma criança o seu comportamento, de uma amiga o seu carinho, de uma
prostituta seu desejo e da minha mente o seu perfume.
Meu quarto já estava cheio de
pedaços, foi quando comecei a montar toda aquela tralha de você. Foi por um
segundo, eu notei que ainda me faltava a sua voz, sua insubstituível voz.
Corri (quase sem forças) até o
bar e te gravei cantando. Na minha corrida contra o tempo, enfim, eu consegui:
na pose de falsos pedaços, te criei submissa a mim.
Não durou uma semana até que eu
me cansasse desse teatro. Completamente bêbada e coberta de ira, eu te destruí.
Desfiz-me de toda aquela sujeira e pedaços, lavei minha alma com lagrimas e
matei a minha sede com outra saliva.
Tudo que me resta de você é sua
voz cantando para mim quando eu bem entender e o seu cheiro que não sai do meu
pensamento.
Preciso de um antídoto para sarar
a doença que me causou à minha cura.