quinta-feira, 26 de junho de 2014

Minha Cura

Minha doença, sinto você cada vez mais distante de mim. E eu que pensei que nunca mais iria me curar desse seu sorriso bobo de dentes bonitos, cabelos loiros que brilham feito o sol no raiar do dia, desse seu toque gostoso que hoje mau me lembro qual.
O meu remédio em nosso tempo.
Minha cura veio com olhar bêbado de frente aos meus olhos sóbrios e boca enfumaçada. Veio de cabelos longos e pretos, vestida como quem não me esperava e cantando feito quem me encontrava. Sorriso aberto de menina mimada que me beijava me consumindo como mulher, nós nos fizemos mulher.
A minha cura veio como um replay do meu adeus de uma vida insana, incontentável. Bebia como se me bebesse e bebia-me de fato enquanto eu me embriagava nos seus olhos que eu não sabia ler ao olhar.
Que remédio raro, que cura difícil.
Ela começou a sentir ciúmes, dizia que eu só a procurava para provocar, disse que já não me queria mais já que a ela eu não podia ser só dela. Se minha cura soubesse o quanto eu a esperei, o quanto a espero, o quanto somos uma da outra.
  Meu corpo voltou a ficar tremulo, meu sangue a esfriar, minha razão ficou bêbada, ao meu passado eu quis voltar, os meus pulmões já estão negros como antes.
Foi ai que comecei a busca desesperada de um genérico para sua formula. Saía pelas ruas na esperança de te encontra. Adquiri ingredientes de uma receita perfeita de você.
Peguei de alguma moça seus cabelos, de uma menina dengosa a sua boca, de um rapaz atrevido o seu sorriso, de uma criança o seu comportamento, de uma amiga o seu carinho, de uma prostituta seu desejo e da minha mente o seu perfume.
Meu quarto já estava cheio de pedaços, foi quando comecei a montar toda aquela tralha de você. Foi por um segundo, eu notei que ainda me faltava a sua voz, sua insubstituível voz.
Corri (quase sem forças) até o bar e te gravei cantando. Na minha corrida contra o tempo, enfim, eu consegui: na pose de falsos pedaços, te criei submissa a mim.
Não durou uma semana até que eu me cansasse desse teatro. Completamente bêbada e coberta de ira, eu te destruí. Desfiz-me de toda aquela sujeira e pedaços, lavei minha alma com lagrimas e matei a minha sede com outra saliva.
Tudo que me resta de você é sua voz cantando para mim quando eu bem entender e o seu cheiro que não sai do meu pensamento.

Preciso de um antídoto para sarar a doença que me causou à minha cura.

Breve e Boemia

Tudo aconteceu no tempo em que o coração sentia-se cheio do vazio de amor.
Ela apareceu com pele morena e boca de menina dengosa. O desejo já era antigo. Ela chegou sorrindo e eu fiquei só rindo. Procurava detalhes de sua insegurança e forçava a sua instabilidade para que talvez viesse a minha inspiração. Meio que quase sem querer ela se deitou em minha cama e de forma que eu não esperava ate falamos de amor, amores antigos (talvez nem tão antigo assim). E com aquele coração recíproco no desamor e sozinho no desapego ela me fez (na pratica) o amor.
E eu: uma mulher, senti-me adolescente. Foi como se os anos nunca houvessem se passado. Comecei a ter ciúmes até das cervejas que ela se punha e dispunha a beber.
E aquele halito embriagado, soprado entre palavras bêbadas me fazia relembrar em flash tudo que poderia se passar na minha mente sóbria, porém, insana.

Eu parecia estar gostando, e entre nós tudo que me aparecia como ponto final eu me via (entre nó) transformando em vírgulas. E quantas vírgulas foram eu nem sei. Mais do que ensaios de despedias, nós tivemos despedias dramáticas. Amor, foi por uma semana e meia que a sua boemia fez-me sentir incomodada. A verdade é que talvez em outra vírgula, entre um nó e outro eu seja a sua desculpa camuflada em motivo para tanta embriagues.